As galinhas ainda botam, mas cada vez menos. Quando trocar o lote?
A conta que mostra quando a galinha velha deixa de compensar a vaga: ovos vendidos por semana, ração, custo da franga nova, valor do descarte e as semanas sem ovo.
A hora de trocar chega quando a galinha velha passa a deixar menos dinheiro por semana do que uma franga nova deixaria no mesmo lugar, já contando o preço da franga e as semanas em que ela ainda não bota. Para saber onde o seu lote está, bastam o caderno de coleta, o preço da ração e o preço que você recebe pela dúzia.
Não existe uma idade certa para todo mundo. Nas granjas típicas levantadas pela CNA em 2022, duas trocavam o lote com 90 semanas, em Campo Verde (MT) e Entre Rios (BA), e outra com 67, em Arapongas (PR). Preço, custo e desempenho do lote mudam de uma granja para outra, e a resposta muda junto.
Por que a galinha velha custa mais por dúzia
Depois do pico, a postura desce devagar, semana após semana. Num lote de Hy-Line W-36, de ovo branco, que siga a curva do fabricante, a postura sai de 96% na semana 30 e chega a 73,5% na semana 90. Postura de 96% são 96 ovos por dia para cada 100 galinhas vivas, ou cerca de 6,7 ovos por galinha na semana. Com 73,5%, são 5,1 ovos. A Hy-Line Brown, de ovo vermelho, faz um caminho parecido e chega à semana 90 com 78,7%.
A postura cai devagar depois do pico. O consumo de ração por ave fica no mesmo patamar até o fim. Fonte: guias de desempenho Hy-Line W-36 (jan. 2020) e Hy-Line Brown (dez. 2025), meio da faixa, sistema em gaiola.
A ração não acompanha essa queda. Na W-36, cada galinha come de 99 a 105 gramas por dia da semana 40 até a 100. Na Brown, de 110 a 118 gramas a partir da semana 28. Resultado: na W-36, a ração gasta em cada dúzia sobe de cerca de 1,25 kg na semana 30 para perto de 1,67 kg na semana 90. É um terço a mais de ração por dúzia, só pela idade.
A Brown bota um pouco mais no fim, mas também come mais. Por isso a conta tem que ser feita com a linhagem que está no seu galpão; na página de linhagens estão as curvas de cada uma.
Esses números são o que o fabricante espera de um lote bem conduzido. O seu pode ficar acima ou abaixo. Para decidir a troca, a sua coleta das últimas semanas vale mais do que a tabela. Conte também as galinhas vivas de hoje: com as mortes pelo caminho, as contas fixas ficam divididas por menos aves.
A conta da semana, galinha por galinha
A primeira pergunta é quanto cada galinha está deixando por semana. A conta cabe numa folha de caderno.
- Ovos vendidos por galinha na semana: pegue os ovos que viraram venda nos últimos 7 dias, sem os quebrados, os sujos descartados e os que ficaram para casa, e divida pelo número de galinhas vivas.
- Quanto esses ovos renderam: multiplique pelo preço que você recebe por ovo, que é o preço da dúzia dividido por 12.
- Quanto ela come: gramas de ração por ave por dia, vezes 7, dividido por 1.000, vezes o preço do quilo.
- A parte dela nas outras contas: mão de obra, energia, embalagem, transporte e o que mais sair do caixa na semana, divididos pelo número de galinhas.
Tire 3 e 4 de 2. O que sobra é a margem semanal por galinha.
Um exemplo para mostrar a conta: pense numa granja de 1.000 galinhas W-36 que bota exatamente o que a curva do fabricante espera. Os valores a seguir são inventados para ensinar a conta e não representam preço de mercado. A dúzia é vendida a R$ 6,00 (R$ 0,50 por ovo), 97% dos ovos coletados viram venda, a ração custa R$ 2,00 o quilo e as outras contas dão R$ 0,60 por galinha na semana.
Na semana 30, cada galinha bota 6,72 ovos e vende 6,52, que rendem R$ 3,26. Come 0,7 kg de ração, que custa R$ 1,40. Tirando os R$ 0,60 das outras contas, sobra R$ 1,26. Na semana 90, ela vende 4,99 ovos, que rendem R$ 2,50. A ração da semana custa R$ 1,43. Sobram R$ 0,47.
Ainda sobra dinheiro, mas dá para saber até onde isso vai. No exemplo, abaixo de 42% de postura os ovos dela não pagam nem a ração: cada semana a mais é dinheiro perdido. Abaixo de 60%, pagam a ração mas não a parte dela nas outras contas, ou seja, ficam abaixo do custo cheio. Pela curva do fabricante, a W-36 não chega a 60% antes da semana 100. Um lote abaixo da curva chega antes, e uma queda no preço do ovo também puxa esse limite para cima: com a dúzia a R$ 4,80, ele sobe para 75%, e a W-36 da curva passa para baixo dele por volta da semana 88.
Esperar a galinha chegar a esse limite costuma ser tarde, porque a vaga dela pode render mais com outra ave antes disso.
Quando a vaga rende mais com franga nova
A franga nova não começa dando lucro. Se ela chega com 17 semanas, passa as primeiras semanas comendo e botando pouco. Pela curva da W-36, a postura está em 42,5% na semana 20 e só passa de 80% na semana 22. Ela ainda precisa pagar o próprio preço. Do outro lado, a galinha velha que sai rende alguma coisa no descarte.
Para comparar direito, some tudo o que a franga nova deixaria na vida inteira (semanas fracas, pico, preço de compra, descarte, galpão vazio) e divida pelas semanas. Feita semana por semana, testando várias idades de descarte, essa conta pede uma planilha.
No mesmo exemplo, com franga pronta a R$ 35,00 alojada com 17 semanas, galinha de descarte vendida a R$ 8,00 e 3 semanas de galpão vazio para limpeza, a melhor média de uma franga nova sai em R$ 0,44 por semana, mantendo o lote até 91 semanas. A galinha velha deixa R$ 0,47 na semana 90 e R$ 0,43 na semana 92. A partir da semana 92, aquela vaga renderia mais com um lote novo.
Exemplo hipotético: o ponto de troca é onde a linha da galinha velha cruza a média da franga nova. Postura e ração da Hy-Line W-36 (guia de jan. 2020); preços e custos inventados.
A semana 92 vale só para esse exemplo. Veja para onde ela anda quando um preço muda, mexendo em uma premissa de cada vez:
- Franga a R$ 25,00 em vez de R$ 35,00: a troca adianta para perto da semana 84.
- Franga a R$ 45,00: a troca passa para perto da semana 100.
- Galinha de descarte a R$ 4,00 em vez de R$ 8,00: a troca vai para perto da semana 96.
- Dúzia a R$ 7,20 em vez de R$ 6,00: a troca adianta para perto da semana 90, porque com ovo valendo mais o pico da franga nova também vale mais.
Franga barata e descarte bem pago puxam a troca para mais cedo. Franga cara e descarte mal pago empurram para mais tarde. Criar a própria franga pode sair bem mais barato que comprar pronta: no levantamento da CNA de 2019, a criada na granja custava em média R$ 10,77 até a postura, e a comprada com 18 semanas, de R$ 20,00 a R$ 25,00. São valores de 2019, bons para mostrar a diferença, não o preço de hoje.
O preço da galinha velha cai quando todo mundo descarta
O valor do descarte entra na conta, e ele muda. Em agosto de 2018, com ovo sobrando e preço pressionado havia dois meses, muitos produtores aumentaram o descarte para produzir menos. Segundo o Cepea/Esalq, em 31/08/2018, os frigoríficos passaram a pagar menos pela galinha viva, porque havia mais aves indo para o abate.
Quem vende galinha velha nessa hora recebe menos. Antes de marcar a data, pergunte ao comprador quanto ele paga agora e use esse valor na conta, não o da última venda. Se o lote ainda está acima do limite do custo cheio, segurar algumas semanas pode sair melhor do que vender o descarte no pior momento.
Trocar sem ficar semanas sem ovo para vender
Quem tem um lote só sente a troca no caixa e no cliente. No exemplo, são 3 semanas de galpão vazio mais cerca de 5 semanas até a franga passar de 80% de postura: quase dois meses com pouco ou nenhum ovo.
Uma saída é ter lotes de idades diferentes. Em vez de um lote ocupando o galpão inteiro, dois lotes com metade das aves cada, um alojado mais ou menos meio ciclo depois do outro. Quando um sai, o outro continua botando.
Exemplo hipotético: franga alojada com 17 semanas, descarte com 91 e 3 semanas de vazio. Com dois lotes alternados, a produção oscila mas não zera. Curva de postura da Hy-Line W-36 (guia de jan. 2020).
A produção média ao longo dos anos fica parecida nos dois arranjos. O que muda é a regularidade da entrega. Em troca, você compra franga mais vezes e em lotes menores, e precisa de um espaço separado para cada lote, para esvaziar e limpar uma parte sem mexer na outra. Combine com o fornecedor da franga, com antecedência, as datas de entrega de cada lote.
Com poucas aves a lógica é a mesma. Se há um segundo espaço, dá para trazer um grupo novo antes de tirar o antigo e não deixar a família ou os clientes sem ovo durante a troca.
E a muda forçada?
Muda forçada é um manejo que faz a galinha parar de botar e trocar as penas para começar um novo ciclo de postura. O objetivo é aproveitar o mesmo lote por mais tempo em vez de comprar um novo.
A prática é discutida por causa do bem-estar das aves. O método tradicional usa restrição severa ou total de ração, junto com menos luz, e pode causar perda grande de peso, estresse e, quando mal conduzido, mais mortes. Em vários países, associações de produtores e certificadoras já restringem ou proíbem o jejum total, e há pesquisa com métodos que tiram menos comida das aves. Se a ideia passar pela sua cabeça, converse com o veterinário ou o técnico que acompanha a granja e com quem compra o seu ovo.
Para fazer a sua conta
Separe as anotações das últimas quatro semanas: ovos vendidos e galinhas vivas em cada semana, ração que saiu do estoque e preço do quilo, preço recebido pela dúzia, outras contas do mês, preço atual da franga e prazo de entrega, quanto pagam hoje pela galinha de descarte e quantas semanas o galpão vai ficar vazio.
Com isso, calcule a margem semanal por galinha do lote atual e compare com a média que um lote novo deixaria. A calculadora do custo da dúzia ajuda a fechar o primeiro número, e a página de comparar linhagens mostra como a curva da franga que você pretende comprar se comporta com a idade. Se a coleta cai mais rápido que a curva da linhagem, refaça a conta todo mês.
Quando a margem da galinha velha chegar perto da média da franga nova, ligue para o fornecedor e marque a entrega das frangas.
Fontes
- Hy-Line International — Hy-Line W-36 Commercial Layers: Performance Standards Guide, Conventional Systems, janeiro de 2020, p. 4 a 6 (tabelas de desempenho no período de produção)
- Hy-Line International — Hy-Line Brown: Guia de Desempenho, Poedeiras Comerciais, Sistemas Convencionais, dezembro de 2025, p. 4 a 6 (tabelas de desempenho no período de produção)
- CNA/Senar, Projeto Campo Futuro — E-book Campo Futuro 2022: Aves e Suínos, novembro de 2022, p. 10 (Tabela 1, indicadores da avicultura de postura)
- CNA, Projeto Campo Futuro — Ativos Aves e Suínos: Custos da recria de pintainhas para a produção de galinhas poedeiras, maio de 2019, p. 1 e 2
- Cepea/Esalq-USP — Ovos/Cepea: Oferta elevada de ovos intensifica descartes de poedeiras, 31/08/2018
- Pedro de Torres — Zootecnia Brasil, Muda forçada em poedeiras comerciais: o que é, como é feita e por que ainda se discute o bem-estar, 06/09/2026