Conhecimento MinhaGranja

Na prática

Para entender suas aves
e cuidar melhor da criação.

Todas as leituras

Produção e manejo

O calor chegou e a postura caiu: como proteger as galinhas no galpão aberto

Galinha de bico aberto, ovo menor, casca fina e ave morta depois do dia quente. O que observar, o que fazer primeiro e o que anotar para atravessar o verão no galpão aberto.

Redação MinhaGranjaPublicado em · Atualizado em

Se as galinhas estão de bico aberto e com as asas afastadas do corpo, elas já estão gastando energia para se livrar do calor. O que mais ajuda nessa hora é água fresca chegando a todos os bebedouros e vento passando na altura delas. Comer menos e botar ovo menor, de casca mais fina e às vezes mole, vêm do mesmo calor e costumam aparecer antes das mortes. Ainda dá tempo de agir.

Este guia é para poedeiras adultas em galpão aberto, com gaiola ou no chão.

Por que o calor derruba a coleta e afina a casca

Galinha não sua. Para perder calor, ela depende do ar que passa pelo corpo, do sangue que leva calor para a crista e a barbela e, quando isso não basta, do ofego: a respiração rápida de bico aberto, com a garganta batendo. Ofegar gasta energia e água, e a ave come menos, porque digerir também esquenta. Com menos ração, a postura cai e o ovo diminui.

A casca sofre por outro caminho. De tanto ofegar, a galinha muda a química do sangue e sobra menos cálcio para a casca. Por isso o ovo de verão quebra mais na coleta, na bandeja e no transporte.

O peso também cai. Num galpão a 32 °C, o ovo pode sair uns 3 g mais leve que num dia de 23 °C, e o estresse de uma onda de calor pode tirar até 4 g de cada ovo. Ovo pequeno e frágil não aguenta estoque: na onda de calor de setembro de 2023, a dúzia chegou a cair 8% no atacado porque a produção precisava ser vendida rápido.

Com quantos graus a galinha começa a sofrer

Escala de temperatura para poedeiras adultas: conforto de 18 a 24 °C, comem um pouco menos de 24 a 29 °C, comem bem menos e a postura cai de 29 a 33 °C, estresse térmico possível de 33 a 35 °C, provável de 35 a 38 °C e risco de morte acima de 38 °C

Acima de 29 °C a galinha come bem menos e a postura cai; umidade alta antecipa o problema. Fonte: Hendrix Genetics, Guia Clima Quente e Tropical (2024), e Extensão da Universidade de Minnesota (2026).

A poedeira adulta fica confortável entre 18 e 24 °C. Acima disso, já come um pouco menos. Entre 29 e 33 °C, come bem menos e a postura cai. Daí para cima, cresce o risco de estresse térmico e, perto dos 38 °C, a ave pode morrer se não tiver alívio.

Meça na altura das aves e longe da parede, onde o ar quase não circula. Dentro da gaiola costuma fazer mais calor que no corredor, e o andar de cima das baterias esquenta mais. Se puder, tenha dois termômetros: se um marcar muito diferente do outro, desconfie dele.

A umidade pesa tanto quanto a temperatura, porque o ofego funciona mal em ar úmido. Uma conta simples ajuda: some a temperatura em graus com a umidade em porcentagem. Perto de 90, as aves ficam confortáveis. Acima de 100, ofegam. Um dia de 32 °C com 70% de umidade dá 102. Um termo-higrômetro mostra as duas leituras.

Dois momentos pedem atenção dobrada. O primeiro é o fim da tarde, entre 15 e 17 horas, quando a temperatura começa a baixar, a umidade sobe e acontece a maior parte das perdas. O segundo é o primeiro calorão depois de dias amenos, quando as aves ainda estão acostumadas ao fresco. Em Bastos (SP), produtores ouvidos em 2022 apontavam setembro e outubro como os meses mais perigosos por esse motivo.

Os sinais costumam aparecer nesta ordem: aves mais paradas e comendo menos; penas soltas e asas afastadas do corpo; bico aberto e garganta batendo rápido. Crista pálida, ave apática ou caída já é urgência.

Água primeiro

Em temperatura confortável, a poedeira bebe perto de duas vezes o que come. No calor, chega a beber até cinco vezes. Quando o calor aperta demais, ela não consegue beber o bastante para repor o que perde no ofego e, sem alívio no ambiente, pode morrer.

A primeira conferência do dia quente, então, é se a água chega a todas as aves. Passe linha por linha procurando bebedouro entupido, nipple sem vazão, boia travada e pressão fraca no fim da linha.

A água esquenta rápido nos canos e logo fica igual ao ar do galpão. O ideal é mantê-la abaixo de 25 °C: caixa d’água na sombra ou pintada de branco, canos longe do telhado e renovação frequente das linhas, abrindo a ponta para escoar a água quente e trazer água mais fresca da caixa. Meça no começo e no fim da linha, porque a diferença pode ser grande. As aves bebem mais no fim do dia, o horário mais perigoso, e é aí que a água precisa estar mais fresca e sobrando.

Se a granja tem hidrômetro, anote o consumo todo dia. Uma mudança grande em relação ao dia anterior pode ser o começo de um problema no equipamento ou de doença.

Eletrólitos e vitaminas na água ajudam pouco perto do que o ambiente resolve; produto e dose ficam com o veterinário ou o nutricionista. Se usar, lave as linhas depois, porque o resto alimenta bactérias e muda o gosto da água.

Vento passando na altura das aves

O vento que passa sobre a ave leva o calor do corpo, e ela sente o galpão mais fresco do que o termômetro mostra. Por isso a ventilação vem em primeiro lugar. O galpão aberto corre mais risco nos dias de ar parado e sem ventilador.

Nos dias quentes, deixe as cortinas abertas e os ventiladores ligados e apontados para as aves. Para clima quente, a meta é um vento de pelo menos 2 metros por segundo na altura delas. Mantenha os ventiladores ligados também à noite, quando as aves se recuperam do dia. Em Bastos, há relatos de galinhas ofegando à noite e retiradas mortas na manhã seguinte.

Ventilador sujo e tela cheia de teia empurram menos ar. Esterco acumulado barra o vento e, úmido, solta calor e umidade; tire antes de começar a estação quente.

Nebulização e aspersão funcionam com ar seco, porque a água evapora e leva calor junto. Com o ar úmido, acima de 80%, só acrescentam umidade e pioram o ofego. Os bicos não devem molhar as aves. Olhe o higrômetro antes de ligar.

Se o galpão depende de ventilador, pense também na energia. Falta de luz é mais comum na época quente e, com tudo parado, o calor pode matar rápido. Um gerador ou outra fonte de reserva entra no plano do verão.

Sombra e telhado: o calor que entra por cima e pelos lados

Esquema de galpão aberto com seis pontos: telhado claro e isolado com lanternim; sombrite nas laterais; vento de 2 m/s nas aves; termômetro na altura das aves; caixa d’água na sombra com água abaixo de 25 °C; grama em volta e árvores que não barrem o vento

Seis pontos para barrar o calor que entra e tirar o que as próprias aves produzem. Fonte: Hendrix Genetics, Guia Clima Quente e Tropical (2024).

Sem resfriamento, sol no telhado, construção e aves podem deixar o galpão mais de 10 graus acima do ar de fora. Parte disso sai com obras baratas. O sol nunca deve bater direto nas aves. Sombrite nas laterais bloqueia o sol e deixa o ar passar. Telhado claro reflete mais calor, e pintar com cal hidratada ou cimento branco já ajuda. O lanternim, abertura no alto do telhado, deixa sair o ar quente que sobe. Isolamento embaixo das telhas segura o calor do dia.

Em volta do galpão, grama irradia menos calor que terra batida, pedra ou concreto. Árvores altas dão sombra, desde que não barrem o vento; como atraem aves silvestres e roedores, pedem cuidado com a biosseguridade.

Ração e coleta nos horários frescos

A galinha come quando o calor deixa, o que no verão significa de manhã cedo e no fim da tarde. Deixe a ração disponível e o comedouro em ordem nesses horários, e evite distribuir ou mexer na ração no pico do calor.

Não troque a fórmula da ração por causa de uma semana quente: a própria mudança estressa as aves e pode derrubar o consumo por alguns dias. Ajustes de ração para o verão, como calcário grosso no fim da tarde para ajudar a casca, são conversa com o nutricionista.

Colete os ovos pelo menos 3 vezes por dia, e mais vezes nos dias muito quentes. Separe trincados e ovos de casca fina, e não deixe as bandejas esperando no sol.

Densidade: menos aves por espaço no verão

Ave apertada atrapalha a passagem do vento e disputa bebedouro e comedouro. Na gaiola, ela também não tem como procurar um canto mais fresco, por isso sofre mais com o calor. Os manuais das linhagens pedem de 450 a 490 cm² por ave na gaiola de postura. Confira a lotação antes do verão e siga também o que a lei da sua região exige.

Vacinação, transferência, seleção e qualquer tarefa que exija pegar as aves ficam para o começo da manhã, porque ave agitada produz ainda mais calor.

Dia muito quente: o que fazer nas próximas duas horas

Lista de sete passos para um dia muito quente: olhar as aves, conferir a água em todas as linhas, abrir cortinas e ligar ventiladores, tirar o sol das aves, deixar as aves quietas, voltar das 15 às 17 horas e à noite, e anotar hora, temperatura, água e mortes

Uma ordem prática para a manhã de um dia que promete ser muito quente. Fonte: Hendrix Genetics (2024), Extensão da Universidade de Minnesota (2026) e MAPA (2026).

Se a previsão confirma um dia muito quente, ou se as aves já ofegam de manhã, siga esta ordem:

  1. Olhe as aves: quantas estão de bico aberto, de asas afastadas ou caídas. Leia termômetro e umidade na altura delas.
  2. Confira a água linha por linha e renove a água dos canos.
  3. Abra as cortinas e ligue os ventiladores, com o vento passando nas aves.
  4. Cubra os pontos onde o sol bate nas aves.
  5. Deixe as aves quietas: nada de vacinar, pesar ou mudar de gaiola.
  6. Volte ao galpão entre 15 e 17 horas e mantenha o ar circulando à noite.
  7. Anote o que viu e o que fez.

Para galinhas de quintal, uma ave caída pode ir para a sombra e ter a parte de baixo do corpo mergulhada em água fresca, não gelada, com a cabeça para fora.

O que anotar durante o verão

Uma folha por dia, mesmo simples, já basta. Anote:

  • temperatura máxima e umidade, com o horário da leitura;
  • água consumida e ração fornecida;
  • ovos coletados e quantos vieram trincados ou de casca fina;
  • aves mortas e o horário em que foram encontradas;
  • o que foi feito: cortina, ventilador, renovação da água.

Com isso você liga a queda da coleta aos dias quentes, mostra ao veterinário o que aconteceu e descobre o que funcionou. Para comparar a produção do lote com o esperado para a idade, consulte a curva da linhagem na página de linhagens.

Quando o calor não explica: chame o veterinário

As perdas por calor têm um padrão. Acompanham os dias e os horários quentes, as aves ofegam antes de morrer e melhoram quando a temperatura cai. Quando o que você vê foge disso, chame o veterinário:

  • aves morrendo de repente num dia que não foi tão quente, ou em horário fresco;
  • espirro, tosse, secreção no nariz ou nos olhos, cara inchada, falta de equilíbrio, crista arroxeada ou diarreia;
  • mortes que continuam depois que o tempo refresca;
  • postura que despenca e não volta com dias mais amenos.

Há um caso em que o aviso ao serviço oficial é obrigatório mesmo que você tenha certeza de que foi o calor. Pela regra do Ministério da Agricultura para criação comercial, mortes de 5% ou mais das aves de um galpão em até 72 horas já são caso suspeito, assim como sinais respiratórios, nervosos ou digestivos, ou queda na produção junto com aumento das mortes. A influenza aviária também derruba a postura e afina a casca, e só o exame separa uma coisa da outra. Nesses casos, avise o serviço veterinário oficial do seu estado ou use o e-Sisbravet, em gov.br/agricultura/pt-br/notificacao, e conte que houve um dia de calor forte: o veterinário oficial avalia se precisa ir à granja. Até ele liberar, segure aves, ovos e esterco na propriedade. Mortes dentro do esperado, num dia quente, não exigem segurar os ovos.

Comece hoje pelo mais barato: um termômetro na altura das aves e a primeira folha de anotações. Com uma semana de números na mão, fica claro onde vale gastar antes do próximo verão.

Fontes